1.06.2018

DIGA "AR"

Hopper, Drugstore, 1927.
                                               
"Conheço o meu destino. Sei que algum dia meu nome se aliará, em recordação, a algo de terrível, a uma crise como nunca ocorreu, à mais tremenda colisão de consciências,
 a uma sentença definitiva, pronunciada contra tudo aquilo
 em que se acreditava, exigia  e santificava
 até então.
Eu não sou um homem; sou dinamite."

Friedrich Nietzsche

Instrumental: John Stockton Slow Drag, by Chris Zabriskie.


Às vezes, sair para comprar aerolin® spray não tem mais volta. Poetas são semeadores de estrelas. Não aquelas já contadas, mas estas, que ainda estão por contar. Eis-me aqui, vagando pelos corredores das noites insones. Se estamos condenados a viver fingindo, devíamos, no mínimo, questionar qual o sentido de tudo isso. Quem sou eu? Quem és tu? Quem são eles? — perguntam-me. Poes de uma Baltimore inexistente?
Recordo-me, quando criança, de subir no telhado da velha casa no campo e arrancar um pedaço da antena em formato de espinha de peixe. A ideia era forjar um canudo que durasse pela eternidade. O dia estava abafado, impossivelmente cinzento, e os únicos ruídos que se faziam ouvir eram os dos ratos, aranhas e morcegos. Olhei para o filtro de barro, suspenso na extremidade do corredor, e improvisei uma escada feita de tamboretes de tamanhos diferentes, de tal forma que eu conseguisse alcançá-lo. Após cerrar as pontas do canudo que extraíra sem dificuldade, em um tijolo, enxaguei-o em um baldinho vermelho e tornei escalar o meu pequeno Everest. Agora, com o copo e o canudo de alumínio, que pareciam feitos um para outro, de tanto que combinavam, abri a torneira, curvei-me diante daquela cascata que os fios de água formavam, e esperei pacientemente até que transbordasse. Fiz uma dúzia de borbulhas sorrindo à saúde daquela descoberta, afinal de contas, eu tinha sido a primeira criança a inventar o canudo mais resistente do mundo. A sede e a vontade de beber fizeram com que a água subisse com urgência do copo para o canudo, e a boca, seca como os girassóis que havia colhido para colocar na jarra três dias antes, foi milagrada por aquela pouca de água. Quando finalmente sorvi a última gota, toda aquela engenhoca desabou comigo, incluindo o filtro de barro que eu havia abraçado para me proteger. Lembro-me de fechar os olhos e tentar, em vão, pronunciar a palavra ar. Os meus gemidos afogados pela tormenta que arrancou parte do telhado para avisar que havia chegado, sinalizaram onde caí. Encontraram-me por baixo das saias do filtro de barro, soterrada por centenas de meteoritos de cerâmica, segurando nas mãos uma espécie de vela breu, que diante do meu olhar infantil, não fazia muito sentido.
 Horas depois, sob uma chuva de partir os ossos, cheguei ao pronto-socorro da cidadela mais próxima, com uma barra de alumínio atravessada no céu da boca. Não me esqueço de um menino maltrapilho com uma das pernas encostada na parede em frente ao corredor. Os olhos eram-lhe como dois pratos brancos e rasos, e as pupilas, em formato de garfo, estavam prontas para espetar qualquer coisa viva que cruzasse aquele círculo invisível de fogo. Olhámo-nos como se olhássemos, não um caminho, mas um atalho sufocado por onde pudéssemos escapar de nós próprios. Perto dele havia uma menina de pouco mais de quatro anos, com alma e corpo de bailarina, sem lábios nem olhos, segurando nas mãos e próximo ao pescoço o que parecia um laço, um fio, ou uma corda. Não sorriam nunca, e eu sorri de volta. Frankenstein's — pensei. Levaram-me às pressas para a sala de emergência, e fiquei ali, imóvel, assistindo ao cortejo silencioso de tesouras, alicates e bisturis, que mais parecia um carrossel de cavalinhos cruéis, esquecidos de que eram só imaginação a simularem um galope real em minha direção.
Passado o espanto, boquiaberta de medo de me terem desmanchado inteira para consertar o estrago, abri um olho, depois o outro. Por um momento, tive a sensação de que o meu olho esquerdo foi colocado no lugar do coração, e o coração havia sido pregado no alto da minha cabeça, como um chapéu. No entanto, o pequeno espelho ao lado da cama mostrou-me que nada disso acontecera. Deslizei a ponta da língua pelas suturas na esperança de mover os maxilares desencontrados, e senti que as costuras ainda sangravam. Deixei escapar um suspiro profundo, sorrindo para o enfermeiro de dentes muito brancos e nariz pontiagudo, e caí em um sono pesado de esquecimento, na certeza de que, cedo ou tarde, o tempo se encarregaria de suavizar aquele incômodo. Não tardei descobrir que aquelas duras linhas eram a garantia de que eu havia sobrevivido a mais um tombo, e, talvez, com sorte, sobrevivesse a outros. Seis anos, seis pontos, seis estrelas. Elas estão bem aqui, ainda estou contando.
Demorei muito? Trinta e dois anos, seis dias e onze horas. Foi o tempo que a memória daquela tarde precisou para que voltasse a me procurar. E não foi para fazer as pazes.
Uma ocasião houve, completamente esquecida no balcão de um café, que conheci um estranho. Um afiador de facas e machados. É como gosto de imaginá-lo. Devia ser por volta das seis da tarde quando, a passos lentos, uma sombra colossal estacionou a bicicleta com uma pasta de livros presa na traseira, adentrou a cafeteria e sentou-se do outro lado do balcão. Logo após a sombra, veio o homem, um pouco menor que ela. Não me esqueço dos cabelos, fios de um alaranjado muito vivo, que serpenteavam como labaredas ao redor do pescoço, dando a impressão de que aquela criatura estava pegando fogo. O cometa Swift Tuttle — pensei. Vestia uma camisa xadrez de mangas dobradas, de um algodão tingido de verde, azul, creme, e cinza, e tinha no rosto um par de óculos quadrados. Pediu à garçonete que lhe trouxesse um suco de laranja, procurando por um canudo familiar que, para a minha surpresa, tinha a mesma cor transparente do copo, e o tomou de um só trago. Abriu a maleta, sacando um tinteiro com a ponta amassada e um livro despedaçado, com todas as páginas todas em branco. Negro fumo, polímero, solvente e goma-laca. Fissura, fissura, fissura, a bruma exalante da mais potente droga já inventada. Eu poderia sentir aquele odor peculiar de tinta fresca a quilômetros de distância. Aquelas mãos e braços cheios de inscrições e símbolos exóticos diziam tanto ou mais que os olhos. Conjecturei se Charles Baudelaire não o teria imaginado...
Volto àquele instante para sempre perdido e paro rente aos seus olhos. Estamos frente a frente, mas ele não vê meu rosto. Eu devia dizer alguma coisa. Que o amo? Mas ele nem me conhece, vai rir de mim, e ainda por cima, pode achar que estou delirando. Por um segundo, fantasio sua barba por fazer, de fios muito grossos, roçando lenta e dolorosamente a superfície do meu rosto. Pergunto-me se retribuiria o gesto. Não tenho respostas, qualquer palavra-peixe que atire em meio a esse oceano de sensibilidade seria uma isca envenenada, poderia saquear dele a profundidade e ser facilmente carregada para a margem. Eu poderia dizer que somos almas siamesas, coladas umas às outras, com quatro únicos olhos de não ver tudo, mas revelar esta tibieza poderia ser perigoso. Ele continua não olhando. Ele não vai olhar. Ele não olhará. Entre içar ou não as velas do barco que ancorei na superfície dos seus olhos, mudo de ideia a cada trinta segundos. Haverei eu, depois de tantos desencantos, de inventar outro tom de azul para seguir navegando? Estou falando com você, da lonjura muda dessas palavras, enquanto imagino-te a lê-las, agitando a corneta ensurdecedora desse spray para asma. Ar, ar, ar, eu poderia encher páginas inteiras com esta palavra. Respiro um ar que já não é só meu e há sempre as noites em que ele me falta.
É como um pé de vento que se quebra no rosto e, depois de fazer festa entre os cabelos, nos devolve o fôlego. Gosto de pensar que o Tempo seja um caprichoso retratista à espera do nosso melhor ângulo. Este aí, com novíssimos olhos, acabados de nascer, que sabe ser invisível e, nos finais de tarde, passeia distraído pelas ruas e avenidas desertas, olhando o sol mergulhar no horizonte, esperançoso de encontrar figuras humanas nas fachadas douradas dos prédios, nos portões coloridos das casas, nos bancos de madeira das praças, nos cafés repletos de revistas e jornais antigos, nos carrinhos de pipoca e barracas de cachorro-quente apinhados nas calçadas dos mercados públicos, nas rodas gigantes dos parques suspensas por torres acesas como candeeiros de fé, entre o azul do dia e o escuro da noite, mas em tamanho contraste com eles, que parecem pertencer a mundos distantes. E ele sim, ele sempre haverá de passar por nós, logo que passemos por ele, tanto quanto haveremos de passar uns pelos outros, assim que passarmos por nós próprios.
  Tudo isto, pelo milagroso instante em que, observador e observado, deslizarão pelo corrimão da imobilidade que há em toda tela e, em um salto sem rede, os pés se entregarão gentilmente aos passos aprendendo e ensinando que, talvez, o melhor desfecho seja respirar respirando, perdoar perdoando, esquecer esquecendo, caminhar caminhando, abraçar abraçando, recomeçar recomeçando, e, sobretudo, assombrar assombrando.
O céu está riscando relâmpagos em todos os ângulos, de alto a baixo. Deslizo as mãos no pelo arrepiado do meu gato, que dilata as luas dos olhos, exibe as garras retráteis e salta do meu colo. Um susto reconhece o outro.


Lídia Martins